sábado, 15 de maio de 2010

UMA PASSAGEM PELA VIDA

PRIMEIRA PARTE

Morreu tristemente, sem dizer o que veio fazer no mundo. Não casou, quase não viveu. Aos dezenove anos, o senhor Hipnos - divindade do sono - concedeu-lhe sono eterno. Coloco um deus da mitologia grega por considerá-lo um deus em virtude e beleza.
Quando ele era criança, até a adolescência, vivia isolado pelos cantos da casa em dias de chuvas e trovoadas, chorava em silêncio. Dava-nos a entender o medo. Quando em dias de sol corria para sentar em baixo de uma árvore frondosa, bem antiga. Fixava os olhos nas flores, parecendo contemplar a beleza e a ouvir os cantos dos pássaros, era primavera, ficava alegre. Neste período vivíamos na chácara na periferia da cidade.
Se as pessoas da família perguntavam-lhe alguma coisa, ele respondia em matáforas. E jamais perguntava a ninguém sobre qualquer coisa. Limitava com gestos e olhares. Era calmo e ouvia a todos com atenção. Era jovem e belo, atributos que a natureza lhe deu. Com essa deficiência aparente, foi à escola aos sete anos. Lá, desenvolveu a sua inteligência e a deficiência fora reduzindo-se até as suas atitudes serem normais.
Aos dezoito para dezenove anos, voltou as atitudes e procedimentos iguais quando criança. Todos nós familiares, ficamos preocupados com o retorno da doença e resolvemos levá-lo ao médico neuro psicanalista. Descrevemos as fases dos seus comportamentos e o médico foi acompanhando nas consultas o desenvolvimento ou não da doença. Vários exames foram feitos e nada acusava de grave ou mesmo sintoma de doença, tudo parecia normal. Foram meses de expectativas com muita ansiedade. Mas, a doença se é que chamamos "doença" nesses casos, tomou rumo letal.
Dias antes da sua morte, de súbito, ele falou com a pessoa mais afeiçoada a ele, sua irmã Tereza, disse: "Querida irmã, se a morte vier cedo para mim, não será surpresa, pois tenho os olhos fechados para não ver os horrores da vida, só vejo o belo. Tenho ouvidos também fechados, para não ouvir lamentações, só ouço as músicas. Sinto assim, não fazer parte como ser humano, mesmo tendo o corpo e usando coisas da terra. Sou feliz, peço não chorar a minha ida, sorria sempre quando lembrares de mim".
Suas palavras saíram (contou Tereza), com voz serena, como nunca tinha se pronunciado a alguém com tanta firmeza. Ao ouvir, meu corpo estremeceu, abracei-o e disse-lhe: Não fales assim... vais ficar bom e se não ficar bom, fiques como estás, não quero senti a tua falta. Ele disse: "A minha ida, não será a morte, o meu corpo fica, eu é que vou, sem sentir a morte. Tu sentirás saudades do meu corpo ele é que convive com todos. Meu espírito sempre estava em permanente contato com a natureza."
No dia da sua morte, era domingo de Carnaval. O povo estava em festa, ouviam-se de longe os grito e as músicas em alto som, convidando os foliões. Aquí em nossa chácara a tristeza tomou conta de todos, o silêncio no vazio. Minha irmã Tereza, estava inconsolável, por vários dias assim.
Eu como irmão mais velho, fui encarregado de todas as obrigações fúnebre. Dolorida missão de quem está vivo. Triste tristeza para um irmão que transcreve essa palavra, SAUDADE.
Deixou um grande vazio nos lugares em que ficava e lembranças de tudo que gostava. Uma interrogação eterna em nossos pensamentos, uma dor perene em nossos corações.
Um adeus sem adeus.


SEGUNDA PARTE

Faz um ano que meu irmão Perício falaceu. Suas lembranças permanecem em nossos pensamentos, não tão sofridas como no início do seu falecimento. Agora todos da família, admitem que a sua passagem entre nós teve um propósito estritamente espiritual de grande importância para a familia e a espiritualidade de todos. Relembrando das suas palavras, ditas para a nossa irmã Tereza: "Tenho os olhos fechados para não ver os horrores da vida, só vejo o belo. Tenho os ouvidos também fechados para não ouvir lamentações, só ouço as músicas. Sinto assim, não fazer parte como ser humano, mesmo tendo o corpo e usando coisas da terra".
Com essas palavras tão afirmativas e claras, compreendemos que o Perício quis dizer, em outras palavras; ele tomou como espréstimo um corpo e durante a sua permanência entre nós, seu espírito cultivou o que de melhor encontrou. Familiares queridos seus em outras encarnações, e a última em passagem do Carma.
Ele foi, foi de encontro as camadas transcendentas reservadas para àqueles espíritos superiores que não voltam mais para conviver conosco. Com este pensar que compreendemos e ajudamos a nossa irmã Tereza a aceitar a morte de Perício. Foi difícil, mas ela terminou concordando dizendo que por diversas vezes em sonho, ele aparecia, sempre jovem e belo, dizendo: "Não chore, sorria, mão houve à morte, meu corpo ficou aí. Na minha vida anterior corporal, vocês foram a minha família e você fez parte como minha esposa. Juntos sofremos e amamos muito. Continue com a sua Fé para conservar a nossa felicidade juntos.".
Hoje, Tereza já não mais chora. Só faz lamentar o quanto perdeu em não ter aceito a partida do Perício. Como também, não mais deseja a sua morte para ir de encontro ao irmão. São apelações que ela não tinha afirmações concretas em vida material. Seu conhecimento em vida após morte, ainda é muito pouco em comparação a fatores tão recente.
Limitamos em reunir todos da nossa familia em dia único da cada mês, em nossa casa, para rezarmos em graça á Deus e pedir mais esclarecimentos aos irmãos da espiritualidade sobre as nossas dúvidas e dificuldades em nossas vidas materiais e como proceder para viver com dignidade e honra. Para maiores clarezas em leitura, temos o livro de Allan Kardec e de outro escritores espíritas para orientar-nos.
Com esse proceder em Doutrina temos a certeza que o Perício está nos acompanhando e nos orientando. Esteja aonde estiver. Sua morte a princípio deixou descreste a todos, mas ao passar dos anos, a dor foi passando. O espiritismo vem abrindo uma nova estrada e mostrado mais Fé e compreenção para a morte. A união familiar criou um laço indelével entre nós. Perício, mostro para nós uma nova Luz que não pode ser extinto.
"A morte é um despreendimento do espírito da matéria. É um laço que vai si soltando gradativamente no decorrer do tempo. E novos aprendizados vão sendo transmitidos, aperfeiçoanto um novo ser".



Álvaro B. Marques











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