O Doutrinador pergunta ao espírito manifestado no médium. Conte-me sobre alguns fatos das suas vidas passada, pode ser? Ele responde: Pra quê? No fundo a humanidade é sempre a mesma. Eu posso falar dos principais fatos que nortearam a minha vida; Nasci em uma aldeia de pesacadores, órfão de pai e mãe. Fui escravo de Cleópatra. Vi os seus amores com Júlio César. Vi depois os seus novos amores com Marco Antonio. Ajudei a construir uma Pirâmide. Assisti à batalha de Actium, o suicídio de Marco Antonio e o suicídio de Cleópatra. Fui cavaleiro andante na Idade Média.
- Pra quê pormenores? A vida é sempre banal. Vivi em Veneza no século XII. Participei de várias construções suntuosas no século XV. Fui conterrâneo doa Medicis. No século XVIII, fui amante de Catarina da Rússia. Dúvidas? Eu fiz muitas coisas. Fui escravo e fui príncipe. Fui soldado e fui general. Conheço o mundo todo e todas as profissões e nem por isso sou mais feliz do que os outros.
- E nunca teve uma vida de aventura?
- Sim, houve uma vida em que eu fui cão.
-Está admirado? Sim senhor, fui cão.
Não desses cães mimados que têm uma dona moça e bonita que os beijos lhe regula as horas de comida e proibe o amor com cadelas vadias.
Dormia ao relento e roubava o que comer. Ia para onde me dava vontade. Amava ao ar livre e coçava as minhas pulgas com toda a liberdade. Não tinha quem dar satisfação do meu ato. Fazia as minhas necessidades fisiológicas em qualquer lugar e creio senhor, foi essa única encarnação em que eu fui completamente feliz. Foi também, nessa encarnação que eu conheci a amizade, único sentimento humano que ficou no corpo primitivo e selvagem do animal imperfeito.
Sim, tenho muitas histórias e muitos gritos de lamentações em todos esses percursos de vidas. Procurava entender o porquê de tantas vidas e porquê tantos sacrificíos humanos. Será que é necessário sofrer com sacrifício para ter depois da morte uma outra vida melhor? Tenho resposta agora ou depois de outra vida?
O doutrinador pediu pausa e no silêncio ouve a oração.
Passa a história, acredita se quizer.
Álvaro B. Marques
- Pra quê pormenores? A vida é sempre banal. Vivi em Veneza no século XII. Participei de várias construções suntuosas no século XV. Fui conterrâneo doa Medicis. No século XVIII, fui amante de Catarina da Rússia. Dúvidas? Eu fiz muitas coisas. Fui escravo e fui príncipe. Fui soldado e fui general. Conheço o mundo todo e todas as profissões e nem por isso sou mais feliz do que os outros.
- E nunca teve uma vida de aventura?
- Sim, houve uma vida em que eu fui cão.
-Está admirado? Sim senhor, fui cão.
Não desses cães mimados que têm uma dona moça e bonita que os beijos lhe regula as horas de comida e proibe o amor com cadelas vadias.
Dormia ao relento e roubava o que comer. Ia para onde me dava vontade. Amava ao ar livre e coçava as minhas pulgas com toda a liberdade. Não tinha quem dar satisfação do meu ato. Fazia as minhas necessidades fisiológicas em qualquer lugar e creio senhor, foi essa única encarnação em que eu fui completamente feliz. Foi também, nessa encarnação que eu conheci a amizade, único sentimento humano que ficou no corpo primitivo e selvagem do animal imperfeito.
Sim, tenho muitas histórias e muitos gritos de lamentações em todos esses percursos de vidas. Procurava entender o porquê de tantas vidas e porquê tantos sacrificíos humanos. Será que é necessário sofrer com sacrifício para ter depois da morte uma outra vida melhor? Tenho resposta agora ou depois de outra vida?
O doutrinador pediu pausa e no silêncio ouve a oração.
Passa a história, acredita se quizer.
Álvaro B. Marques
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